Se você linkou o Mario Quintana e não encontrou seu blog/site na lista acima, me avise lá no bArafuNda. Você pode também adicionar seu blog ao Technorati, pois lá eu vejo a lista atualizada e passo pra cá :)
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo, Contra uma parede nua... Sentou-se... e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida Apenas restava de seu a Glória, Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas Coloridas Nas mãos esclerosadas de um caduco! E então a Morte, Ao vê-lo sozinho àquela hora Na estação deserta, Julgou que ele estivesse ali à sua espera, Quando apenas sentara para descansar um pouco! A Morte chegou na sua antiga locomotiva (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...) Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho, E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu... Ele fugiu de casa... Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade... Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!
Um orador deveria limitar-se ao essencial. Especialmente nesses discursos de banquete — os quais teriam, todos eles, o texto seguinte: "Minhas senhoras e meus senhores. Tenho dito".
Sempre que o convidavam a uma casa, perguntava-lhes se podia ir com outra pessoa. Combinado! Deixava então os outros conversarem à vontade, enquanto ele fingia que estava escutando.
As fronteiras foram riscadas no mapa, a Terra não sabe disso: são para ela tão inexistentes como esses meridianos com que os velhos sábios a recortavam como se fosse um melão. É verdade que vem sentindo há muito uns pruridos, uma leve comichão que às vezes se agrava: ela não sabe que são os homens... Ela não sabe que são os homens com as suas guerras e outros meios de comunicação.
Amar: Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei...
Oh ! aquele menininho que dizia "Fessora, eu posso ir lá fora?" mas apenas ficava um momento bebendo o vento azul ... Agora não preciso pedir licença a ninguém. Mesmo porque não existe paisagem lá fora: somente cimento. O vento não mais me fareja a face como um cão amigo ... Mais o azul irreversivel persiste em meus olhos.
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... Minha pedra de Calcutá!
Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo Estivesse pintado numa tela, Sempre... #11:36 - -
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o vento morria de tédio porque apenas gostava de cantar mas não tinha letra alguma para a sua própria voz, cada vez mais vazia... tentei então compor-lhe uma canção tão comprida como a minha vida e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito, como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo... mas o vento, por isso me julga agora como ele... e me dedica um amor solidário, profundo! #11:08 - -
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Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta... Antes escrever os Lusíadas! Com uma carta pode acontecer Que qualquer mentira venha a ser verdade... Olha! O melhor é te descrever, simplesmente, A paisagem, Descrever sem nenhuma imagem, nenhuma... Cada coisa é ela própria a sua maravilhosa imagem! Agora mesmo parou de chover. Não passa ninguém. Apenas Um gato Atravessa a rua Como nos tempos quase imemoriais Do cinema silencioso... Sabes, Beatriz? Eu vou morrer! #06:02 - -
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De uma feita, estava eu sentado sozinho num banco da Praça da Alfândega quando começaram a acontecer coisas incríveis no céu, lá pelas bandas da Casa de Correção: havia tons de chá, que se foram avinhando e se transformaram nuns roxos de insuportável beleza. Insuportável, porque o sentimento de beleza tem de ser compartilhado. Quando me levantei, depois de findo o espetáculo, havia umas moças conhecidas, paradas à esquina da Rua da Ladeira. — Que crepúsculo fez hoje! — disse-lhes eu, ansioso de comunicação. — Não, não reparamos em nada — respondeu uma delas. –– Nós estávamos aqui esperando o Cezimbra. E depois ainda dizem que as mulheres não têm senso de abstração... #16:41 - -
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Essa lembrança que nos vem às vezes... folha súbita que tomba abrindo na memória a flor silenciosa de mil e uma pétalas concêntricas... Essa lembrança...mas de onde? de quem? Essa lembrança talvez nem seja nossa, mas de alguém que, pensando em nós, só possa mandar um eco do seu pensamento nessa mensagem pelos céus perdida... Ai! Tão perdida que nem se possa saber mais de quem! #16:35 - -
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Como essas coisas que não valem nada E parecem guardadas sem motivo (Alguma folha seca... uma taça quebrada) Eu só tenho um valor estimativo...
Nos olhos que me querem é que eu vivo Esta existência efêmera e encantada... Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada Refletirá meu vulto vago e esquivo...
E cerraram-se os olhos das amadas, O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos, Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...
E, no entretanto, em meio desta longa viagem, Muitas vezes parei... e, nos espelhos, Procuro em vão, minha perdida imagem!